segunda-feira, 2 de maio de 2011

Carta para Lelê

  Querida Lelê,
hoje é sexta-feira, a última de abril de 2011. Este ano parecia tão distante e agora estou nele. O tempo fica mais veloz; talvez sua idade não lhe permita compreender. Por muito esperei este ano e nada ocorreu como desejei.
  Espero que esta seja a primeira de muitas cartas; poderá se acostumar com meus garranchos, erros e citações.
  "Faz um tempo, eu aguardava tudo para um dia especial, distante. Fui ficando mais calado e mudo até sacar que o futuro é uma meta flutuante".
   A gente sempre lê, ouve que devemos viver o presente; a teoria não costuma estar em sintonia com a prática. Vivendo e aprendendo.
  Deitado em minha cama, escuto rádio e observo a paisagem. Não tenho vista pro mar, nem pras montanhas, nem pra uma bela cidade. Há um basculante e duas janelas que mal posso ver, nunca se abrem e estão sempre iluminadas; duas antenas e dois ferros retorcidos; algumas plantas, muito concreto e um pedacinho do céu.
  Gosto de observar nuvens deslizando no azul do dia e no escuro da noite, mas hoje não há vento pra fazer dançar as nuvens e as plantas. Nem a chuva veio. Adoro ouvir o barulho da chuva, vê-la caindo; é como se preenchesse o seco tédio que às vezes veste minha existência.
  O frio chegou nesta semana. No primeiro dia me recusei a usar casaco, não quis aceitar que o verão tinha ido embora, como uma mão não aceita a morte de um filho.
  Meu coração está inquieto. Vejo uma sombra se aproximar, o futuro é incerto e meu espírito carece de força de vontade. Também há luz e esperança; ainda que frágeis, permaneço firme nelas.
  Talvez não saiba sobre o que falo. O importante é que pude ocupar um pouco do tempo nesta noite de tédio; você proporcionou uma pequena alegria.
  Espero ter resposta tua, notícias de tua terra distante, de teu estudo e de teu lindo coração que reflete na Bahia.
  Que a luz esteja sempre com você.

                                                    Saudades, de seu amigo
                                                    Rui Felipe

"me interessa o que não foi impresso e continua sendo escrito a mão"

Um comentário:

Gabi. disse...

"Adoro ouvir o barulho da chuva, vê-la caindo; é como se preenchesse o seco tédio que às vezes veste minha existência."